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As sombras do mundo

Os lugares solitários são catalisadores de mistérios. E esses mistérios ficam perpetrados por certos detalhes: muros altos, portões trancados, janelas fechadas, bucólicas alamedas, trilhos de trem, velhas escadarias... Não por acaso que Adriana Donato percorre os espaços ermos da cidade para capturar, com sua câmara, paisagens transpassadas de sombras e indeléveis sentimentos de isolamento e abandono. Suas imagens nos tocam não somente pela sutileza das escuras formas projetadas no plano dos chãos e das paredes – em delicadas tramas de linhas e manchas, como uma ilação do desenho e da pintura – mas especialmente pela pungência com que essas nos revelam o mundo, para além do que apenas vemos, e então, o imaginamos largamente.

As sombras abrem essa percepção sensível, pois que sendo também alusões do objeto, como suas co-presenças fantasmáticas e hipnóticas, prendem nosso olhar sem sabermos exatamente o porquê, em uma mistura de assombro e fascínio. Portanto, de um modo geral, nas fotografias de paisagens (aqui, nesse caso, urbanas e suburbanas), ou mesmo, nas fotografias de detalhes, a sombra pode ser um punctum [1], ou, um elemento que aterrissa pungentemente em um espaço impreciso da memória e do desejo. Diante de tais paisagens impregnadas de sombras, posso me perguntar: onde fica esse lugar que me parece tão familiar? Anseio estar lá, habitando esse espaço, respirando o ar morno de suas tardes... Como esquecer que as sombras mais intensas encontram-se somente nos lugares onde os raios de luz solar se precipitam fortemente sobre a natureza e as coisas?

A sombra projetada é o que mais instiga Adriana desde o início de suas pesquisas com as artes visuais. Primeiramente, após a prática do desenho, a artista explorou as sombras em uma série fotográfica intitulada “sombras sobre o corpo”. Nessas imagens, o gesto criativo está mergulhado na construção de uma visualidade que suavemente interfere no real sem jamais negá-lo – prática desenvolvida por um dos vieses da arte surrealista, e que se estende à contemporaneidade no que se refere ao uso da fotografia como linguagem. Nos closes de “sombras sobre o corpo”, por exemplo, podemos observar que o corpo real – e visto apenas em detalhes – está marcado por sombras de um outro corpo, (ou, às vezes, do mesmo) estabelecendo desse modo, uma atmosfera enigmática e, lembrando a ação do punctum, um tanto pungente. A imagem de corpo é tão fragmentada que somente se completa, em seus reais contornos, no campo da imaginação. Além disso, obscurecido pelos recortes e as sombras, o corpo se confunde com o plano de fundo, criando tensões entre o figurativo e o abstrato.

Agora, nessa atual série, as sombras estão projetadas sobre um outro corpus: o espaço da urbe que exibe sua pele riscada pelas intempéries e por uma admirável mantilha de sombras – sombras de caules e galhos de árvores, fios elétricos, grades de ferro, cercados de arame – elementos que perseguem um pensamento visual carregado de desdobramentos. Embora aqui, nessa nova série, os recortes não chegam eclipsar o objeto fotografado, as sombras continuam emaranhando suavemente os planos e assim, criando áreas de vertigem.

De uma avenida a uma ruazinha, de uma fachada de prédio a um pedaço de muro: cada retalho da cidade pode nos reportar a um insituável recanto do planeta. Ao contrário do cartão postal que se propõe mostrar – de uma maneira clara – os atrativos turísticos de um conhecido lugar, as imagens de Adriana trazem em seus detalhes, as brechas abismais para um território inominável. As texturas do concreto são planos que se apresentam sempre retintos de escuras manchas, ou, de linhas que mobilizam nossa percepção, deixando-a flutuar entre o real e o imaginário.

Essas imagens, que buscam as sombras como pontos de efeito, parecem conter o tempo no vácuo dos intermédios: entre o “isso foi” e o “isso será”, em uma analogia com a própria essência da Fotografia. A Fotografia que é uma sombra, um vestígio da realidade.

Eis que, inesperadamente, em meio a tantas imagens de paisagens despovoadas, vemos uma mulher observando uma avenida deserta; e, como uma negra sombra noturna, ela parece nos convocar para a percepção do que se move sobre a tessitura das coisas: toda a densidade de um mundo evanescente e silencioso.

Dione Veiga Vieira

Março/2009

Acesse o blog: http://revisadoseoutros.blogspot.com/2009/04/as-sombras-do-mundo

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[1]BARTHES, Roland. A Câmera Clara. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984.