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A cauda longa dos artistas somos nós

Há um livro muito interessante circulando pelo meio empresarial e acadêmico (aliás, meios cada vez mais misturados) chamado “A Cauda Longa”, de Chris Anderson. No livro, lançado no Brasil pela Editora Campus, o editor da revista Wired amplia um conceito cunhado por ele, o de Cauda Longa, e debate seus efeitos na economia, administração e cultura.

Basicamente, a cauda longa é o que no Brasil conhecemos por "base da pirâmide", os 80% que costumavam representar apenas 20% das vendas e por isso eram relegados pela indústria e comércio tradicionais. Agora, com as novas tecnologias de comunicação, distribuição e comércio, diversas empresas apostam exatamente nesses consumidores (Google, eBay, iTunes) e provam como pode ser lucrativo olharmos para a cauda da curva (ou a base da pirâmide), e não apenas para sua ponta, ampliando as ofertas e criando verdadeiros nichos.

Para ilustrar, o primeiro exemplo de Anderson é o de músicas baixadas pela Rhapsody (serviço pago de download de músicas). Claro que há os hits, há músicas com 180.000 baixas e há em torno de 2 mil músicas com mais de 20 mil baixas. Mas há outras 25.000 músicas com pelo menos mil downloads (o que, no conjunto, é mais lucrativo que os hits). E, mais do que isso, há 95.000 músicas com mais de 100 downloads e todas as 800.000 músicas no site tiverem pelo menos um download.

O primeiro capítulo talvez seja o que mais interessa para nós, artistas: debate como a tecnologia está convertendo o mercado cultural de massa em milhões de nichos. Segundo as observações de Chris Anderson, se a indústria do entretenimento no século XX baseava-se em hits, a do século XXI se concentrará com a mesma intensidade em nichos.

"Os consumidores estão mergulhando de cabeça nos catálogos, para vasculhar a longa lista de títulos disponíveis, muito além do que é oferecido na Blockbuster Video e na Tower Records. E quanto mais descobrem, mais gostam da novidade. À medida que se afastam dos caminhos conhecidos, concluem aos poucos que suas preferências não são tão convencionais quanto supunham (ou foram induzidos a acreditar pelo marketing, pela cultura de hits ou simplesmente pela falta de alternativas."

"Os consumidores estão mergulhando de cabeça nos catálogos, para vasculhar a longa lista de títulos disponíveis, muito além do que é oferecido na Blockbuster Video e na Tower Records. E quanto mais descobrem, mais gostam da novidade. À medida que se afastam dos caminhos conhecidos, concluem aos poucos que suas preferências não são tão convencionais quanto supunham (ou foram induzidos a acreditar pelo marketing, pela cultura de hits ou simplesmente pela falta de alternativas."

Talvez isso valha também para o cinema, certamente vale para a televisão, não por acaso hoje não temos ícones da indústria cultural como foram Madonna e Michael Jackson nos anos 80 (por aqui, Xuxa e Roberto Carlos, talvez Sílvio Santos), e as celebridades revezam-se com velocidade espantosa nas capas das revistas.

O que há no lugar disso? O nicho, ou seja, o surgimento de milhares de grupos com interesses mais específicos. Na música, por exemplo, há os que curtem o tradicionalismo clássico, os que preferem o tradicionalismo moderno, os que ouvem sertanejo, os que ouvem Caetano, os que ficaram nos anos dourados do rock'n'roll, os fãs de música gospel e por aí vai. Você dirá que antes já havia essa multiplicidade de gostos, claro, mas hoje, como nunca e muito por causa da internet, TUDO está disponível e ao alcance de alguns cliques, alimentando e fomentando esses grupos.

Assim, a velha máxima que "20% dos produtos respondem por 80% das vendas, e geralmente 100% dos lucros", está em xeque. Hoje todos encontram público, em maior ou menos quantidade, mas encontra.

Nosso portal, o Artistas Gaúchos, não deixa de ser um bom exemplo disso. Temos mais de 750 artistas cadastrados, dos mais variados estilos, das mais variadas artes, unidos apenas pelo fato de terem nascido ou trabalharem no Rio Grande do Sul. Claro que há os artistas mais procurados (na última contagem, Leia Cassol, na foto ao lado, era a que mais gerava acessos ao AG), mas os dados de acesso demonstram que praticamente todos os artistas tiveram pelo menos um acesso nos últimos meses, e seria praticamente impossível separarmos os 20% mais acessados dos demais, pois eles representariam menos da metade dos acessos.

Mais do que isso, o conceito de cauda longa diminui um pouco a velha angústia que temos em relação aos hits nacionais e internacionais, sempre nas capas dos jornais, nas vitrines das lojas, com os teatros lotados e os cofres cheios. Muitos, é claro, de qualidade duvidosa, porque como bem aponta Anderson, estar no topo da curva não é sinal de qualidade, e sim de penetração comercial, o que muitas vezes requer uma homogeneização do produto.

Isso não significa que na outra ponta da curva, onde estamos nós, reside a alta qualidade artística. Nada disso: nos nichos há o melhor e o pior em termos de qualidade, até porque cada público terá o seu conceito de qualidade. Mas não podemos negar que um amante da música clássica, por exemplo, vê muito mais qualidade num disco da Anabel Alzaibar do que num da Ivete Sangalo, e para um apreciador do nativismo é muito melhor o Joca Martins do que o Caetano Veloso. Isso é cauda longa.

Naturalmente se fizermos outro recorte, veremos que o próprio mercado gaúcho criou seus hits, como Moacyr Scliar, Engenheiros do Hawai, Tangos e Tragédias, e não é por acaso que poucos desses hits gaúchos estejam cadastrados no portal: para ser um hit não basta ser um hit, é preciso comportar-se como um. Mas também é evidente que os figurões não conseguem mais abarcar fatia tão grande do mercado, e aos poucos a força do conjunto que se torna mais importante que uma ou outra celebridade.

O efeito de tudo isso? Para Anderson, e espero que ele tenha razão, não é um maior entredevoramento entre os artistas, e sim uma maior procura pela arte. Quando alguém encontra um nicho de música ou literatura que realmente goste, com a qual se identifique, e não seja apenas fruto de um modismo midiático, ele tende a consumir mais, ser mais fiel, freqüentar mais shows ou lançamentos. Aliás, nosso robusto mercado de música tradicionalista que o diga.

No final das contas, a cauda longa somos nós, e já é hora de pararmos de brigar com ou invejar os hits e qualificarmos nosso trabalho, melhorar nosso profissionalismo, forçando a cauda da curva para cima e criando, com isso, nosso próprio público, nossos próprios hits.

Marcelo Spalding

Jornalista, escritor e idealizador do AG, atua na edição de conteúdo do site, além de ser o responsável pelos cadastros e por responder aos contatos feitos pelo site Artistas Gaúchos.

Conheça o site: www.artistasgauchos.com