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ARTE [BELA] CONTEMPORÂNEA

Quando falamos em monstro, logo lembramos que este pode ser resultado de manipulações de diversas ordens (vide o famoso “Frankenstein”). Fazendo uma comparação grosseira (mas própria para o momento), a arte contemporânea seria, sim, como um monstro. Muito antes de ser uma qualificação pejorativa, a comparação pode ser mesmo conveniente. Assim como o monstro, a arte contemporânea não é “bela”, ou melhor, não se fixa em padrões como o “belo” ou o “feio”. Também, como muitos monstros, ela se forma pela mistura, no caso, de diferentes meios, técnicas, conceitos. Híbrida ou mestiça, ela se constitui como um novo, diferente e inusitado “ser” em seu contexto.

Talvez seja a fotografia, na arte, uma das maiores “monstruosidades” que o homem já conheceu. Desde muito cedo do seu surgimento, ela serviu à arte e contribuiu para a subversão desta, protagonizando, junto ao cinema, a “era da reprodutibilidade técnica”. A partir disso, ela ganhou espaço e trouxe consigo uma série de questões. Que tipo de imagem esperamos ao ver uma fotografia? Até que ponto seria a fotografia fiel ao real?

Beleza e naturalismo, possivelmente, não seriam as respostas-chave ao falarmos em arte contemporânea e fotografia. Os “monstros” aí estão presentes. No entanto, estes “zumbis” que fazem a arte contemporânea são a expressão maior da reflexão que a própria exige, de forma justa, de todos nós.

As três artistas desta exposição, através da fotografia, questionam o belo na arte contemporânea. Produzem imagens que também abordam as peculiaridades da técnica utilizada, como o enquadramento, a seleção da imagem e a relatividade do seu valor enquanto reflexo do real.

Adriana Donato explora a fotografia em preto-e-branco, valorizando as sombras (ou ausências de luz), colocando em questão o elemento basilar da técnica. Recentemente, sua escolha tem recaído sobre espaços da cidade, através dos quais capta essas ausências de luz. Os contrastes aparecem com perfeição. A beleza e o cuidado de sua técnica são confrontados com o estado de depredação dos monumentos que fotografa. Dessa forma, a artista valoriza aquilo que raramente seria percebido pelos que percorrem apressadamente a cidade.

Raquel Lima apresenta imagens que remetem a elementos do corpo, como em seus últimos trabalhos em gravura. Através da fotografia, a artista cria um olhar dentro de outro, como uma metalinguagem da visão. O orifício pelo qual vemos uma paisagem indica-nos uma seleção dentro de um contexto maior, amplo, porém a nós interditado em parte. A bela paisagem não nos é permitida em sua plenitude.

Dânia Moreira, em seus trabalhos em pintura, relaciona esta com a imagem fotográfica. Esta relação não é esquecida na obra exposta pois a artista traz o elemento do bastidor. Ao mesmo tempo este, através de suas linhas, define um limite, seleciona um espaço, bem como o enquadramento fotográfico. As fotos, por outro lado, trabalham as oposições entre o verdadeiro e o falso, questão relevante da fotografia.

Para uns, o início do séc. XX abriu a “porta dos horrores” no campo das artes. Para outros, abriu uma porta para a liberdade de expressão. A fotografia participou fortemente deste processo e ainda hoje temos dificuldades em digerir essas mudanças. Ao mesmo tempo, os traumas causados pelos “horrores” geram as saudáveis discussões, que provocam acordos e desacordos. Nada mais justo. Porém, nada mais injusto que exigir da arte contemporânea, ou mesmo da fotografia, que estes sigam cânones de beleza. Afinal, como eles seriam, já que o julgamento de gosto é individual, subjetivo? Consola-nos pensar que para tudo existe um espaço. Deixemos o “monstro” que vive na arte dele também desfrutar.


Giovana Ellwanger

Formada em História, Teoria e Crítica de Arte, pelo Instituto de Artes - UFRGS