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SOBRE FOTOGRAFIAS

16 de junho de 2010

por Ana Zavadil

“Fotografar é colocar na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração.”Henri Cartier-Bresson

As práticas fotográficas pontuam os trabalhos desta exposição de diferentes maneiras, em que a originalidade está nos valores e conceitos que elas suscitam, agenciando olhares, criando passagens entre territórios e construindo proposições artísticas de inegável valor plástico e técnico, muito mais do que uma imagem sobre o papel. As imagens aparentemente silenciosas provocam e se direcionam para uma infinidade de discursos sobre elas.

De um passado não tão distante em que a daguerreotipia foi o começo para um novo desafio – o de registrar imagens –, a fotografia teve seu uso designado para registros científicos, antropológicos, arqueológicos, vistas panorâmicas de cidades e retratos. Passando por diversas etapas de aperfeiçoamento e interesses, como a jornalística, a publicitária e a artística, instala-se por meio da fotocolagem, do abstracionismo e do tratamento digital como uma das principais expressões da arte contemporânea.

Entre todas as artes, explica Alexandre Santos, ela é a que proporciona, de modo mais eficaz, o encontro da objetividade – a realidade registrada – com a subjetividade – o olhar interpretativo do fotógrafo. (SANTOS, 1990, p-103). As imagens, bem como o espaço, prescindem do olhar diferenciado do artista, pois a realidade é vista sob o ângulo escolhido por ele.

Essa linguagem contemporânea abarca estratégias plasmadas pelos artistas e o uso de celular, polaroides, técnicas artesanais e o ambiente digital transformam os processos tradicionais e modificam os paradigmas que norteiam o mundo da fotografia.

A fotografia abre-se ao múltiplo, produz transversalidades e integra um contexto de virtualidades, coabita com outras linguagens, traz questionamentos sobre o seu estatuto na contemporaneidade em que ela caminha mais devagar, no sentido do purismo ou de especificidades, e muito mais veloz na direção dos hibridismos, das mestiçagens, dos dispositivos imagéticos e da experiência visual. A fotografia, no contexto das novas mídias, altera significativamente o conceito de fotográfico e a relação do observador com a imagem. Podemos nos permitir viajar pelo conjunto plástico desta exposição tendo em vista as possibilidades de resignificação das imagens e dos diálogos com apropriações, manipulações e contaminações, além de questões que envolvem a memória, a identidade e o corpo.

André Venzon: Os lugares/não lugares essenciais na poética de André Venzon são construídos em madeirite. Nos sítios urbanos, o artista ora cria passagens fictícias interrompendo o fluxo normal dos pedestres, ora invade o espaço com as suas maquetes avantajadas para sensibilizar o público. Pensar a arte para Venzon é criar novos territórios. Enquanto os lugares são apagados, ele os reinventa ao apropriar-se deles para criar outros. André Venzon desafia os sentidos de quem partilha da sua arte e contribui para uma reflexão sobre ela e sobre as relações entre espaço, corpo, cidade e memória para indagar qual é o seu lugar e o lugar da arte.

Adriana Donato: As sombras, nas imagens de Adriana, marcam a sua presença sobre paisagens urbanas. Essa escolha nos remete ao fascínio e ao mistério no modo como elas tramam-se sobre um objeto, valendo-se deste para transformá-lo de coadjuvante em personagem principal, pois o desenho das sombras projetadas revela esse objeto oculto. Adriana busca o objeto a ser capturado em andanças pela cidade e escolhe os motivos que deseja imobilizar pelos registros colocando-os em cenas que ressaltam o silêncio e a solidão, como portões, casas, árvores, em que os galhos evocam desenhos estranhos e, por vezes, lembram seres saídos da escuridão, fantasmáticos, suscitando percepções que não são as do dia a dia, entre a velocidade e a quantidade de informações que recebemos. Neste momento de imersão, podemos resgatar o olhar fragmentado e a sensação de perda e plasmá-los em uma experiência intensa para explorar o silêncio e os dizeres das imagens.

Camila Schenkel: Nesta série de trabalhos, Camila apropria-se de panfletos publicitários de vendas de moradias, distribuídos nas sinaleiras da cidade. As imagens manipuladas em ambiente digital são reusadas em montagens, em que as construções são substituídas por superfícies espelhadas, restando o lugar “ideal” onde elas estão inseridas. O objetivo do trabalho é criar a simulação de um ambiente, onde o observador vai se colocar dentro dessa cena. Portanto, a obra, para existir nesse novo contexto, precisa do observador e de cada um em particular como peça de um jogo. O senso lúdico no sentido de jogo formal é construído pela sensibilidade de Camila quando ela cria essa situação de armadilha para o público.

Kátia Costa: Kátia Costa nos propõe uma experiência visual e sensorial: entrar em um objeto que inspira mistério e segredo. O que há dentro do cofre? Que tesouro pode conter? A passagem entre os territórios reais e imaginários, em que a imaginação está guardada em gavetas que se multiplicam, mexem com a nossa percepção. O simulacro, o abismo, a vertigem são palavras que afloram por meio dos nossos sentidos. A simulação de uma passagem: lado de dentro - lado de fora; o despenhadeiro, o sentir-se afundar e a vertigem pela repetição das gavetas em todos os lados do cofre por meio dos espelhos que tornam o ambiente abissal. O observador mais do que nunca, faz a obra quando ele a penetra para passar para outro mundo, como “um vir a ser”. Segundo Roland Barthes, pelo seu conceito de punctum, apenas um detalhe pode levar o observador para dentro da cena, ou seja, do cofre.

Letícia Lampert: As fotografias de Letícia Lampert são da ordem da fotomontagem e são produzidas para chamar a atenção para o mundo conturbado em que vivemos e como nossas cidades se transformam pela incontida velocidade em que qualquer terreno com uma casa antiga pode desaparecer em poucas horas, dando lugar a mais um prédio com mil janelas. As fotografias são manipuladas trazendo mestiçagens à cena: são pedaços de casas velhas misturadas a prédios modernos, varandas invadidas por outras, verdadeiras construções poéticas que funcionam como uma crítica para a sociedade tão refém da mídia. A desconstrução é, na verdade, uma construção feita pela justaposição de fotos que criam uma morada imaginária, uma ilusão, um efeito de agregação que cresce para todos os lados desordenadamente como a cidade. Porém, aqui o caos possui uma beleza plástica que nos encanta.

Letícia Lau: Letícia Lau conjuga alguns verbos para a realização do seu trabalho plástico, como apropriar, construir, simular. A instalação composta por caixas de madeira penduradas na altura do olho, com orifícios que a circundam são feitas para provocar o observador para desvelar os seus mistérios, andando ao redor e descobrindo as imagens. Uma primeira questão surge de imediato: O que se vê são fotografias ou brinquedos representando uma cena? O trabalho instigante revela algumas possibilidades de descoberta da verdade da obra, um olhar mais atento vai perceber que Letícia cria jogos para o olhar. O processo criativo é laborioso e começa com a apropriação de imagens reais de tragédias de grande impacto midiático. Essas cenas são remontadas por meio de brinquedos (legos) e fotografadas de vários ângulos. As fotografias viram slides dentro de monóculos e vão para as caixas reproduzindo a cena que pode ser vista ao andar ao redor da caixa. Eis a grande verdade! No entanto, a verdade da obra conjuga contradições: a forma indefesa e agradável dos brinquedos retrata cenas de violência. A pesquisa de Letícia traz à tona a questão da banalização das imagens, mostradas de maneira excessiva, transformando a tragédia em espetáculo nas redes de comunicação.

Ana Zavadil é mestranda, em Artes Visuais, pelo Programa de Pós-graduação em Artes Visuais da UFSM, bolsista da CAPES e sua linha de pesquisa é Arte e Cultura. Além disso, é curadora independente e crítica de arte.

REFERÊNCIAS

SANTOS, Alexandre. Suzan Sontag: uma pacifista diante da dor dos outros. Porto Arte: revista de artes visuais, Porto Alegre, V.12, nº21-jun. 1990